domingo, 7 de setembro de 2008

PÁTRIA MINHA

[ Um belíssimo poema
para refletirmos no dia de hoje!... ]
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te, no entanto, em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha,
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha,
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinícius de Moraes."
Texto extraído do livro "Vinícius de Moraes - Poesia Completa e Prosa",
Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág.383.
Fonte da imagem: www.uniblog.com.br

6 comentários:

Irmão Sol, Irmã Lua disse...

É "Sorella",
Versos lindos, versos tristes sobre nossa pátria amada, pátria de tantas esperanças e espiritualidade, mas também de tanta dor e tanto descaso por parte de nossos representantes.
Hoje estava conversando com mamãe, nunca senti um sete de setembro tão frio em termos de patriotismo, não ouvi um comentário, não vi uma referência na TV e mesmo na internet, o que estará acontecendo com o povo brasileiro?!! Acho preocupante.
Coloco abaixo o belo soneto de Bilac sobre o Brasil, falando sobre o belo destino espiritual a que está destinado.
Beijo de carinho,
Benja.

BRASIL (Olavo Bilac)

Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,

Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.

Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.

E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

Do livro Parnaso de Além-Túmulo
Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Ela disse...

Me mantenho patriota , sempre. O mais bacana é que nem precisei estar no exílio.

Conte ao Benja que na minha terra , o Sete de setembro foi maravilhoso. Desfilamos , no total em 2000 pessoas, e outras oitocentas estavam na platéia. Número significativo , em se tratando de uma cidade de dez mil habitantes.

Alunos, atletas, grupos organizados... foi tudo d e lindo e eu me emocionei com a Escola de Educação especial cantando uma canção sobre a Pátria.

Acredito que cada um de nós é parte integrante desta pátria e precisa auxíliar com atitudes a manter o patriotismo vivo.

Beijo

Lilás disse...

Lindo poema deste brasileiro que amava e honrava nossa terra.
Só conhecia um pequeno trecho, mas adorei lê-la toda em voz alta para mim e meu marido.
Lindo!
beijo carioca

Gabriel disse...

Existem algumas pessoas com um talento de transcender o tempo e o próprio momento em que viviam.

(Ou será a história escrita de uma forma que faz com que certos sentidos perdurem por tanto tempo?)

Carol disse...

Tem selinho pra ti lá no Blog!
;***

beatriz disse...

Adorei o blog,Rose, muito poético...(não podia esperrar outra coisa,né?)especialmente o texto de Vinícius,um poeta extraórdinário,eu,sou fã dele!
Quando tiver um tempinho,passa lá no meu blog: http://vermelholimao.blogspot.com
bjos

Bia

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